07/12/2011

Show de choro

Meu pai adora sofrer. Como eu sei? Pelos programas de TV que gosta de ver. Ele não gosta de filme de pancadaria, high-school ou vampiros. Ele gosta mesmo de programa que faz chorar, seja filme, seja show. O importante é ter choro.

Por isso ele não podia perder o X-Factor, aquele programa de calouro daquele cara que é do contra, o Simon. Ontem passou o episódio que passou na semana anterior nos EUA, quando os gringos celebraram o Thanksgiving ou Dia de Ações de Graças. O programa aproveitou o gancho e fez um show de gratidão: cada candidato cantou homenageando alguém, mas ninguém se lembrou de agradecer ao peru.

Tinha tanto candidato com a vida cheia de problemas -- lar desfeito, criança abandonada, drogas, morte da mãe -- que quando passou o filminho piegas que antecedeu a apresentação do grupo Lakoda Rayne, formado por quatro garotas, meu pai até quis chorar de pena delas: nenhuma tinha a vida desgraçada pela tragédia.

Sabe quando você está num grupo de amigos e cada um conta a sua tragédia e você fica vasculhando na memória para ver se acha uma tragédia maior pra contar? As meninas deviam estar se sentindo péssimas por não ter uma desgraça de arrancar (mais) lágrimas da jurada Paula Abdul e do meu pai.

Hoje é dia da eliminação, mas meu pai já viu no site o resultado da semana passada, e não deu outra: as quatro garotas vão para o olho da rua, juntamente com outra do grupo das "sem tragédia", a Drew. Parece que o critério usado no programa é o do "desgraça pouca é bobagem".

No resultado do site, permanecem aqueles que trazem no currículo uma tristeza qualquer:
  • Rachel Crow - filha adotiva, nasceu viciada em crack porque a mãe era viciada. No programa homenageou os pais.
  • Josh Krajcik - teve uma filha aos 17 anos, ou melhor, a menina que ele engravidou foi quem teve e ele criou (acho que foi isso, ou pelo menos foi o que o programa explorou). Homenageou a filha.
  • Chris Rene - ex-viciado em drogas, está há 7 meses limpo porque, ao contrario da Amy, não disse "No! No! No!". O cara é uma inspiração para quem caiu no mesmo problema. Homenageou seu conselheiro da clínica de reabilitação.
  • Marcus Canty - filho de mãe solteira, prestou homenagem à mãe que estava na primeira fileira se abanando de calor. Neste meu pai chorou um balde.
Já deu para ver duas coisas aqui:

Primeiro, que esta vida não é um mar de rosas e se você tem alguma desgraça para contar, então você está entre os normais. Minha avó costumava dizer que se a vida neste mundo fosse perfeita ninguém iria querer morar no céu.

Segundo, se você é daqueles que ficam reclamando porque quebrou a unha ou foi deixada na mão pelo namorado, ainda não viu o que é desgraça de verdade e nem aprendeu a dar a volta por cima. Essa gente toda, ao invés de ficar na sarjeta se lamuriando, botou pra quebrar e aprimorou seu talento. É assim que se faz. Autopiedade é uma droga que vicia.

Mas pelo resultado do "chorômetro" de meu pai, a mais cotada da noite foi a Rachel Crow, a garotinha de 12 ou 13 anos que é uma fofura e simpatia. Quem diria que um bebê que nasce viciado em crack, de uma mãe viciada em crack, poderia dar certo? Mas deu, porque um casal viu sua desgraça e decidiu ajudar a mudar a sorte da criança. O casal adotou a Rachel e depois outra menininha. As duas são só gratidão.

Veja alguns trechos de matéria do New York Post sobre Rachel Crow:
"Ela foi um bebê de mãe viciada em crack e nasceu em um lar onde consumiam crack, além de sofrer muitos abusos", conta a mãe adotiva Barbara Crow. "Mas ela não foi nem um pouco afetada por isso. Ela não enxerga seu passado de um ponto de vista triste, mas como tendo sido aquilo que fez dela a pessoa que hoje ela é".
Barbara, uma ex-conselheira de saúde, e seu marido Kelly, que tem um negócio de escavações em Boulder, Colorado, levou Rachel para casa para cuidar dela quando esta tinha 6 meses e a adotou um ano mais tarde. Eles não sabem quem foram os pais biológicos.
"Ela chegou até nós pelo Serviço Social", diz Barbara. "Em situações assim a adoção tem um pouco mais de perigo, por isso eles mantêm tudo em segredo. Não é como uma adoção normal. Neste caso os pais perderam a guarda da criança e esta tinha sofrido muitos abusos", conta Barbara. "Eu gostaria de poder encontrá-los pelo menos por dez minutos".
Rachel, que uma das finalistas do X-Factor da Fox, diz que não tem interesse em conhecer seus pais biológicos. "Eu já tenho pais maravilhosos", disse ela ao The New York Post ontem. "É estranho, porque todo mundo diz que minha mãe adotiva não é minha mãe de verdade, mas eu digo que ela é sim".
Sem mais delongas, aqui vai o que a Rachel é capaz de fazer para você também chorar se quiser. Não sei não, mas acho que o patrocinador do programa é o lenço Kleenex.




Um comentário:

M7 disse...

LINDO DE CHORAR!

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