03/04/2013

Semana do Autismo

Esta semana é comemorado o dia do autismo, uma data para ajudar as pessoas a se familiarizarem com quem é autista. Então é bom você começar a se familiarizar comigo porque acho que sou um pouquinho disso também. É claro que no pacote tenho outras coisinhas, como paralisia cerebral, mas a primeira coisa que perceberam em mim era um comportamento singular.




Logo que cheguei eu não queria o contato com pessoas. Se alguém me pegasse no colo eu começava a fazer uns estalos com a língua na garganta para provocar o vômito. Pode apostar que muita gente saiu vomitada com aquele meu costume. Mas talvez aquilo fosse mais por ninguém me carregar no colo. Os primeiros quatro anos de minha vida passei numa cama (se é que alguém pode chamar aquilo de cama) com a perna amarrada para não rolar e cair.

Mas eu tinha também um outro comportamento que pode ser considerado de autismo. Eu ficava deitado com as costas de uma mão sob o queixo e a outra debaixo dela esfregando-a com o punho fechado. Era um negócio meio sinistro porque eu entrava em uma espécie de transe com aquela esfregação ritmada. Não conte para ninguém, mas a única maneira de meus pais me livrarem daquilo foi dando um tapinha carinhoso na mão e um berro nada carinhoso  do tipo "PARE DE ESFREGAR AS MÃOS!!!". O berro doía, o tapinha não. Você poderia chamar esse tratamento de áudio sensorial.

Quando me ensinaram a ficar sentado - é isso mesmo, eu não sabia ficar sentado até os quatro anos - eu comecei a esfregar as mãos sob o queixo e também a balançar o corpo para frente e para trás. Com o tempo meus pais acabaram com minha mania de esfregar a mão naquele ritmo que ia crescendo como se eu entrasse num estado de histeria, mas o balançar eu ainda balanço.

Meus pais acabaram achando que este meu costume tem menos a ver com o autismo e mais com o fato de eu ser deficiente visual. Já viu vídeos de cegos como Ray Charles e Stevie Wonder? Eles balançam o corpo por serem deficientes visuais e a razão disso é faltar um referencial visível para usar como âncora espacial. Meus pais passaram a me respeitar mais depois que fui promovido ao status de Ray Charles e Stevie Wonder.

Acho que hoje ainda tenho alguma coisa de autismo porque levo o maior susto quando alguém fala algo para mim. É como se eu estivesse no mundo da Lua e fosse trazido à terra de repente. Meu pai tem medo que isto aconteça enquanto eu estiver comendo, pois no susto eu também sugo o ar rapidamente como qualquer pessoa que leve um susto.

Ah, tem mais alguns comportamentos que são bem de autista. Por exemplo, tudo o que fazem comigo precisa ser feito sempre na mesma ordem ou eu fico irritado. Então se termino de almoçar e alguém se esquece de dar a sobremesa e o último gole de água antes de me tirar da mesa eu finco os pés no chão e não conseguem puxar a cadeira de rodinhas onde me sento para comer. Eu piso no freio. Se eu decido engatinhar numa direção é melhor não tentar me fazer ir em outra. O jeito mais fácil é fechar uma porta ou colocar um obstáculo para eu descobrir que não posso passar por ali, porque se alguém tenta me virar eu fico muito bravo.

Pessoas autistas sentem segurança fazendo as coisas de forma metódica e quem não vive neste mundo pode não entender isso. Quando encontrar pessoas que fazem as coisas sempre do mesmo jeito e no mesmo lugar, não tente mudá-las. A menos que isso se transforme em um comportamento perigoso, como meu hábito de esfregar as mãos que me levava a um estado de histeria, é melhor simplesmente ignorar.

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