17/06/2013

Quarto, Doce Quarto

Meu pai ainda está aprendendo. Depois de 27 anos tendo o prazer de minha simpática companhia só agora ele entendeu uma coisa que eu sempre entendi, só não falava porque não falo: gosto do meu quarto. Ele achava que eu ficava melhor na sala, que é ampla e tem música e TV. Então sempre me colocava ali durante o dia ouvindo jazz e à noite ficava ao meu lado para ver TV. Eu pacientemente suportava isso.

Mas ele percebia que eu ficava fungando e resmungando, irritado e zangado com algo que ele não conseguia explicar. Quando meu pai viajava, as empregadas me deixavam na poltrona que tenho em meu quarto, ouvindo música clássica ou hinos instrumentais. E eu ficava feliz. Depois de todos estes anos a ficha caiu e meu pai percebeu o óbvio: eu gosto mais de ficar em meu quarto do que na sala. Agora ele me tira do banheiro de manhã e pergunta aonde eu quero ir, no quarto ou na sala. Vou engatinhando direto para o quarto. E quando ele pergunta: "Você gosta tanto assim do seu quarto, Pedro?" eu só respondo com uma gargalhada bem gostosa.

Existe uma explicação, ou ao menos meu pai pensa que achou uma. Depois de ler o livro "Carly's Voice" (pode comprar na Amazon neste link) ele entendeu um pouco do funcionamento de um autista, e eu tenho um certo grau de autismo e "otras cositas más". A Carly é uma dessas autistas que ficam balançando o corpo, fazem movimentos loucos com os braços e pernas e dão gritos inesperados. Ela parece não entender nada e ser incapaz de se comunicar, mas entende tudo e aprendeu a se comunicar digitando palavras no computador.

Por isso agora os médicos estão entendendo melhor o autismo e como um autista se sente, porque a Carly está escrevendo sobre seus sentimentos. Ela conta que aqueles movimentos e gritos são a forma que o autista tem de tentar neutralizar os estímulos que vêm de fora, concentrando-se em si mesmos. Por isso se fecham.

Um autista sente-se mais ou menos como alguém que usa um aparelho auditivo antigo: o aparelho amplifica todos os sons, desde a voz de quem está na frente dele até latidos, roncos de motocicletas, buzinas etc. Quem usa um aparelho assim sabe como é difícil se concentrar na conversa porque todos os sons chegam no mesmo volume e são difíceis de serem separados. Muitos usuários acabam deixando o aparelho desligado para não se irritarem.

É como quando você conversa no Skype ou em um viva-voz e tem muita gente do outro lado. Já sentiu a confusão que fica? Numa conversa ao vivo nosso cérebro faz o ouvido focar no som que interessa e jogar os outros para um segundo plano, mas o aparelho auditivo antigo amplifica tudo igual. Os novos já estão aprendendo e são mais seletivos.

Quando você lê um livro, com seu filhinho se mexendo em seu colo e numa sala com gente conversando, a TV ligada e a luz de um anúncio luminoso piscante da rua refletindo no vidro da janela, somente o livro estará no foco de sua atenção. O contato de sua pele com seu filho, as conversas, a música, a TV ou o luminoso da loja em frente são neutralizados. Você nem percebe esses estímulos.

O autista é diferente. Tudo isso está chegando até ele na mesma proporção e com a mesma importância. Seu cérebro é incapaz de focar em uma só e ele acabará enlouquecendo se não encontrar alguma coisa mais forte para prender sua atenção. Para isso ele produz seus próprios sons e movimentos para tentar fazer com que estes se sobreponham aos estímulos externos. E então se fecha em seu mundo interior.

Meu pai chegou à conclusão que comigo também é assim que a coisa funciona. Na sala ampla e espaçosa, com a TV ou música ligadas, com ele ao meu lado fazendo cócegas, me cutucando e falando comigo eu estou exposto a muitos estímulos e acabo irritado. Em meu quarto, pequeno e aconchegante, sozinho e ouvindo música clássica, eu tenho melhor controle de meu mundinho e me sinto seguro e descansado. Então eu sou feliz.

Não sei como meu pai não tinha percebido isso há alguns anos, quando outra empregada que cuidava de mim vivia me estimulando com cantorias, gritos e sacudidas. Eu detestava e vivia irritado. Meu pai percebeu e mandou ela parar de ficar fazendo festa o tempo todo, mas ela passava um tempo quieta e começava de novo, porque achava que o que eu precisava era de bagunça.

Mas não pense que ao contar isto eu esteja dizendo que agora meu pai está cuidando de mim corretamente. Ainda não. Muita coisa ainda pode melhorar, ou piorar porque ele está ficando velho e gagá. Por exemplo, se você reparar na foto abaixo, tirada no último final de semana em que viajei com meu pai para Ipuã, SP, no detalhe em que eu apareço num jantar você verá um calombo em minha blusa de lã. Meu pai vestiu minha blusa e nem percebeu que eu estava segurando meu ursinho de pelúcia. O ursinho ficou lá, enfiado dentro de mim, um bom tempo e só depois de bater a tirar a foto que ele percebeu. Aí fez o parto do bichinho.


Fique agora com um vídeo que conta a história de Carly, a garota autista do livro que meu pai leu:





4 comentários:

Helena Monteiro disse...

Toda vez que leio uma postagem, me emociono. Nosssa! Lindo

Maira Egito disse...

Oi Pedro e pai de Pedro. Acabei de encontrar vocês, pois vi o filme Somos todos diferentes e achei a postagem sobre. Vou lendo as coisas de vocês e compartilhando na rede social tá? Abraços!!!!

valniloureiro disse...

Eu tenho a Carly no meu FB. Ela fala/escreve coisas incriveis.

Tenho uma sobrinha autista (leve)e é muito importante para mim ler esse tipo de texto. É tocante. tks

valni loureiro

valniloureiro disse...

Tenho a Carly no meu FB. É muito bom ler as coisas que ela "fala".

É tocante textos como este. tks

valniloureiro

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