12/09/2016

Meia evidencia de um delito

Sofro de paralisia cerebral, não enxergo (só vejo vultos), sou mudo e não sei caminhar. Mas engatinho pela casa, o que ajuda muito quem cuida de mim e evita que alguém precise fazer força para me carregar. Sozinho eu consigo me erguer e sentar-me na poltrona do meu quarto, no sofá na sala e na cadeira de rodas, mas nesta precisa ter alguém para segurar a cadeira para não mover.

Costumo descer de minha poltrona, onde fico ouvindo música o dia inteiro segurando um bichinho de pelúcia — tenho um montão deles, mas o da hora é uma zebrinha — e quando dá vontade engatinho até o banheiro onde existe uma barrinha na parede ao lado do vaso sanitário. Fico de joelhos, seguro na barra, fico em pé, tiro a calça, sento no vaso onde faço xixi ou cocô. Mas a ordem não é sempre exatamente a mesma, e as duas últimas fases podem acontecer entre a poltrona e o banheiro. Como aprendi a ficar sem fraldas em casa, considere isso um acidente eventual. Mas a frase de meu pai é sempre a mesma: "Aaaaahhh... Pedro... Você fez xixi no chão?!". Até parece que eu vou dizer alguma coisa para admitir a culpa.

Minha cama no quarto ao lado do banheiro é ao nível do chão para eu não cair quando sonhar com terremoto, então como sempre precisa ter alguém pelo menos observando o momento em que eu fico em pé no banheiro, meu pai deixa na porta de meu quarto um tubinho vazio de Gelol com outra latinha em cima. Assim quando eu saio engatinhando derrubo as latinhas, faço barulho e meu pai ou a empregada corre para ficar por perto caso eu perca o equilíbrio na hora de me sentar.

Antes que você sugira um sensor de porta de loja, saiba que meu pai já tentou. Mas ele funcionava com luz e às vezes alguma mudança na claridade do corredor pelo farol de um carro na rua passando pelo vitro do banheiro fazia com que disparasse no meio da noite. Imagine meu pai pulando da cama e correndo com sono e vai perceber que o perigo de acidente não era meu, mas dele.

Hoje na hora que normalmente acordo (7:00h) meu pai foi me chamar para ir ao banheiro e encontrou o tubinho no meio do corredor com uma meia caída ao lado, a única evidência que deixei de que já tinha passado por ali. Meu pai me encontrou sentadinho no vaso e sem deixar nada além da meia pelo caminho. Eu tinha conseguido tirar a calça e a fralda da noite (esta é uma façanha) sem derrubar a latinha (que deslizou) e sem fazer qualquer ruído.

Meu pai sempre ora para eu não sofrer algum acidente nessas façanhas que para mim têm o mesmo perigo de praticar um esporte radical, mas quando ele era mais novo consegui derrubar a cadeira de rodas que estava fechada encostada à parede do banheiro e ela quebrou meu pé. Passei um bom tempo com bota de gesso e aí ficou tudo mais complicado para quem cuida de mim. Hoje felizmente não quebrei nada. Nem o silêncio da manhã.



5 comentários:

Unknown disse...

Interessante ♡

Wiviane Rodrigues disse...

Quanta dedicação ♡♡♡

Wiviane Rodrigues disse...

Interessante ♡

Gisele Formiga disse...

Olá querido Pedro,

Eu ri muito do seu "delito" e fico feliz que você esteja surpreendendo seu pai...

E aí, me conta, como é ser tão amado assim? Uma benção, não é?

Graças à Deus por você ser tão bem cuidado. Se pudesse falar imagino que você não teria

palavras para agradecer à sua família, especialmente ao seu tão dedicado pai.

Olha Pedro, não sou tão nova assim que poderia ser filha dele, talvez pudesse sim, mas como

não tenho o meu pai, eu estou aprendendo muito com o seu, quando assisto os vídeos do

evangelho em 3 minutos e leio as postagens dele, fico me sentindo uma filha que tem muito a

aprender, creio que não sejam poucas as pessoas que se sintam como eu.

Um forte abraço à vocês com muita gratidão. Que Deus continue os abençoando imensamente.

Deise Dias disse...

Oi Pedro...como você está hoje? Cometeu algum "delito"?rssss
Eu tenho 60 anos, e apesar de ter sido muito ativa, trabalhado muito, agora estou com algumas restrições, como você, e pelo que sei elas tendem a aumentar. Não importa por onde começamos, se com todos os sentidos aguçados, dentro do que chamam de normalidade, ou se já com algumas restrições...mais cedo ou mais tarde aprendemos a conviver com limites. O importante é ser agradecido e de preferência bem-humorado, aprendendo a rir de nossos limites e de alguns "delitos" que possamos cometer. Com a idade a gente vai percebendo que perdemos agilidade, visão, temos dificuldade com nossa memória e às vezes vemos nossos queridos rirem de nós. E aprendemos a rir também...afinal, faz parte!
Obrigada por contar de suas dificuldades e seus delitos... me animou muito. Diz pro pai, que ele tem me ajudado muito. E sou muito grata a Deus pela vida dele e pela sua. Não vamos perder o contato, tá? Beijo

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