05/03/2011

New York, New York

Quando o Frank Sinatra cantava de New York, "If I can make it there, I'll make it anywhere" ("Se eu puder fazer ali, farei em qualquer lugar"), ele não estava pensando em coisa errada, né?



Outro dia meu pai estava na "Big Apple". Não, ele não estava comendo uma maçã grandona, ele estava em Nova Iorque com minha irmã que ia levar meu sobrinho Luke ao médico.


Depois de engolirem uma pizza às pressas na "Perfecto Pizza" da 2479 Broadway, minha irmã disparou para o consultório e meu pai arrastou os pés até um Starbucks, porque assim minha irmã combinou: "Você fica com o Mark ali no Starbucks da esquina e espera lá".

Depois que minha irmã saiu com o Luke, meu pai ainda demorou para pagar a pizza (americano come pizza no almoço), saiu e olhou para os lados em busca do Starbucks que minha irmã falou. Não achou, mas lembrou que tinham passado por um alguns quarteirões antes, na 2394 Broadway, quase esquina com a 88th Street. Foi até lá arrastando os pés para fazer hora e empurrando o carrinho com o Mark, meu outro sobrinho que tem 8 meses.

Chegando lá pediu o maior café que tinha, porque minha irmã ia demorar. Pediu só um porque não sabia se o Mark gostava de café. No térreo não tinha mesinha vaga, só no mezzanino. O Starbucks deve ser uma espécie de abrigo para novaiorquinos sem teto, porque só uns dois ou três tomavam café nas mesas. A maioria conversava, navegava na Internet, pintava e bordava.

Então meu pai ficou plantado ali de pé tomando seu gigantesco, melado e enjoativo café, cheio de ingredientes que ele não sabia identificar, enquanto o Mark no carrinho sorria para ele.

O Mark aprendeu a sorrir quando nasceu e não parou mais. É só olhar para ele e ele liga seu enorme sorriso banguela. Só fecha a boca depois de alguns minutos que não tem ninguém olhando, como se fosse um salva-tela.

Aí uma moça desocupou uma mesa e meu pai sentou para dar mamadeira para o Mark, que já dava sinais de que iria trocar o sorriso pelo choro. Nas duas outras únicas mesas do térreo tinha um cara trabalhando no notebook e dois jovens jogando xadrez sob uma plaquinha que dizia: "Preferencial para idosos, grávidas e deficientes".

Aí chegou uma moça que não era nem idosa, nem grávida (pelo menos que eu saiba), nem deficiente, mas tinha o pé quebrado e andava de muletas. Plantou ao lado da mesinha e ficou esperando cair a ficha de um dos rapazes do xadrez.

"Oops!", disse ele, "Vou ver se tem uma mesa vazia no mezzanino para a gente ir jogar lá". Subiu, desceu, e informou: "I'm sorry, no table". E voltou a jogar xadrez como se nada tivesse acontecido.

Felizmente o carinha que trabalhava na mesa ao lado decidiu que tinha terminado o serviço e deu o lugar para a moça de muletas. Mesmo assim demorou uma era para enrolar o fio de seu notbook. Na cidade mais famosa do mundo é cada um por si. Gentilezas só da boca para fora.

O Sinatra podia cantar de NY "If I can make it there, I'll make it anywhere", mas era melhor ele não vir fazer essas coisas no Brasil. Aqui tem uma lei que obriga as pessoas a darem o lugar para idosos, grávidas, mães com crianças de colo e portadores de deficiência (ou com o pé quebrado, claro).

Quando a gente vê outras pessoas fazendo coisa errada, dá até um prazer na gente, não dá? Parece que a gente é melhor porque não erra, né? Pois é, meu pai sentiu esse prazer, mas não por muito tempo.

Depois de mais de uma hora ali esperando e tomando café com conta-gotas para justificar sua presença na mesinha, ele teve a ideia de perguntar para a moça do pé quebrado se teria outro Starbucks perto dali.

Tinha sim. Ficava na 2498 Broadway, esquina com a 93rd Street. Era lá que minha irmã tinha combinado de eles se encontrarem.

Um comentário:

josé disse...

será a idade?

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