24/09/2016

Como a adoção destruiu a minha vida

Meu pai recebeu, via Facebook, um texto escrito por um pai de adoção que expressa bem o que sentem essas pessoas que adotam crianças cheias de problemas como eu. Há trinta anos ele e minha mãe me adotaram quando eu tinha quatro anos de idade. Com já contei aqui, sofro de paralisia cerebral, sou cego, não ando, não falo etc. Esta semana uma pessoa perguntou a meu pai o que ele fará quando estiver velho e doente demais para tomar conta de mim. Então ele começou explicando do começo para mostrar como será o fim.

Ele contou como eu entrei na vida deles, que tinham o desejo de adotar um filho, não porque quisessem mais filhos — eles já tinham dois biológicos — mas porque devia existir alguma criança por aí que precisava de pais. Ele contou também que oraram para que se fosse da vontade do Pai ele trouxesse uma criança deficiente e colocasse na soleira de sua porta. Isso porque eles não tinham coragem de sair por aí procurando. Ele disse ainda que uma amiga de uma cidade distante viajou até onde eles moravam com seu filhinho adotivo para uma cirurgia dos olhos, e ficou hospedada com eles. Então essa visitante contou que havia uma criança em sua cidade precisando de alguém, pois sua avó, que cuidava dela, tinha morrido e sua mãe vivia nas ruas. Quando meu pai e minha mãe souberam disso, pensaram:

"Ok, isso é Deus respondendo nossas orações e colocando uma criança na soleira de nossa porta".

Depois de contar esta história, meu pai disse à mulher que fez a pergunta:

"Se foi Deus quem trouxe Pedro para nós no início, será também o mesmo Deus quem irá cuidar dele no final".

Fique agora com o texto de autoria de Stacey Gagnon que meu pai traduziu de um blog chamado "Ranson for Israel", que contém muitos textos sobre adoção em inglês.

Como a adoção destruiu a minha vida

Talvez eu precise de Deus a cada momento do dia por estar cansado e porque às vezes é apenas difícil demais. E talvez existam dias em que eu lamente minha vida de antes de ter escolhido cuidar de destroços. Há algum tempo eu conhecia a verdade, e cegamente me deixava levar pela vida sem me aprofundar muito no sofrimento, injustiça e dor. Agora percorro a lama e a areia e vejo. Eu era cego, mas graças a Deus agora eu vejo.

Neste texto combinei as palavras e sentimentos de muitos amigos e pais adotivos... amigos que optaram por arruinar suas vidas através da assistência social e da adoção. Amigos que escolhem fazer isso repetidas vezes.

Bem que me avisaram: "Essas crianças vão arruinar a sua vida". Fui avisado que o custo era muito alto e que eu não poderia salvá-los todos. Fui avisado de que eles cresceriam e não serão tão bonitinhos quando eu estivesse cuidando de um filho adotivo de 35 anos de idade que ainda morasse em minha casa. E se eles estivessem tão estragados que acabassem na prisão? E se eles nunca pudessem me amar de volta, mesmo eu tendo investido tanto dinheiro e tempo neles? E se a adoção viesse a destruir completamente tudo o que eu tivesse construído para mim mesmo? Como isso afetaria meus filhos biológicos? E se não posso salvar o mundo, seria esta a melhor maneira de investir meu dinheiro? E se eles morressem assim que eu os levasse para casa? Não estaria eu velho demais para isso? E se eles viessem a me arruinar...

Respondo que chega uma hora quando é preciso avaliar o que estamos vivendo e optar por sermos arruinados. Talvez a ruína seja o lugar onde devemos viver. Talvez essa coisa de adoção seja um trabalho árduo, de feias lágrimas, corações partidos e noites sem dormir. Talvez seja uma luta diária e as recompensas sejam poucas e pequenas. Talvez o custo supere o ganho. É possível que eles cresçam e se tornam criminosos ou nunca consigam viver de forma independente. Talvez eu traga alguém para casa que esteja simplesmente doente demais e eu acabe precisando segurá-lo enquanto ele morre.

Talvez ele me odeie e queira me machucar, porque pode ser demais para ele confiar em um adulto estranho. Pode ser demais para ele para abrir-se à dor da rejeição, e o medo dele ser maior que o meu amor. Talvez eu o tenha trazido para casa essa ruína e dor e lhe tenha dado um lugar em minha mesa de jantar para ele olhar cada dia como um lembrete constante de sua ruína. Talvez eu precise de Deus a cada momento do dia, porque estou cansado e às vezes seja apenas difícil demais. E talvez existam dias em que eu lamente a vida que tinha antes de ter escolhido esses destroços. Há algum tempo eu conhecia a verdade, e cegamente me deixava levar pela vida sem me aprofundar muito no sofrimento, injustiça e dor. Agora percorro a lama e a areia e vejo. Eu era cego, mas graças a Deus agora eu vejo.

Mas talvez eu tenha escolhido fazer isso novamente por conhecer as alternativas. Talvez eu conheça o cheiro de urina misturada com dentes cariados e negligenciados, o som de um silencioso orfanato, ou a dor nos olhos de uma criança, quando elas são colocados em mais um lar adotivo que nunca será uma casa para sempre. Talvez eu tenha segurado em meus braços uma criança morrendo e abri minha porta às 3:00 da madrugada para aceitar uma criança em fase de desintoxicação de algum abrigo. Talvez eu tenha chorado lágrimas em nossas audiências de adoção, porque percebi que meu filho acaba de perder uma mãe e um pai. E talvez eu estive sentado em meu carro chorando depois de ele ser enviado de volta para sua casa, para a mesma mãe viciada em crack e o pai entorpecido que foi considerado inapto um ano atrás.

Talvez eu escolha a adoção porque Cristo me adotou quando eu estava destroçado, irredimível e sofrendo. Talvez Ele tenha me escolhido quando ninguém mais o faria. Talvez Deus tenha tomado meus pedaços e me amou, sem pensar em ser recompensado. Talvez Ele tenha me pegado quando eu não tinha nada para dar em troca. E talvez Deus tenha sido paciente enquanto eu perseguia sonhos ocos e conceitos vãos. Talvez Deus tenha ficado em silêncio enquanto eu trabalhava contra as correntes deste mundo, esperando quieto que eu enxergasse a definição dEle de sucesso e vitória. E eu agora aqui sentado e sendo capaz de ver, mesmo em meio a dor, o quanto isso é real, cheio de graça e atado com esperança. Essa é a verdadeira beleza encontrada nas cinzas da solidão e do abuso, e sou abençoado por experimentar dessa porção.

Olho para esta ruína e acho que não consigo enxergar a confusão, a dor, a realidade. Acho que o amor deve fazer-me cego para o presente e o  passado, mas abrir bem os olhos para a eternidade. Porque o que eu vejo são as crianças que amo demais. Vejo a benção das pequenas vitórias, porque sei o caminho íngreme tomado para alcançá-las. Vejo as batalhas internas e as cicatrizes emocionais de abuso e fico maravilhado com a sua resistência. Meus olhos estão agora abertos. E acho que essa ruína é exatamente onde eu quero viver, porque você mora ali também meu Deus.

"Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós." Romanos 8:18

9 comentários:

Pastor Antônio Júnior disse...

Tremendo! Te admiro muito Mario, como pai e como pregador da Palavra. A sua recompensa será grande lá na eternidade.

César Augusto Camelo Ferreira disse...

Conheço a história de um PAI, que foi muito mais além, pois foi ao ponto de levar à morte o seu único filho PERFEITO para adotar vários filhos cheios das piores deficiências.

Barbosa Freitas disse...

texto realmente claro e profundo.que o Senhor lhe continuar sustentando irmao mario graça e paz.

Gisele Formiga disse...

Olá Pedro,
Fiquei muito emocionada com este texto e sempre me emociono com a sua história, estou lendo o livro que sua irmã escreveu e a cada dia aprendo o que o amor é capaz de fazer e de resgatar em um mundo tão hostil.
Sabe que essa pergunta que fizeram a seu pai já passou por minha cabeça, eu mesma já senti muito medo de faltar às minhas filhas, mas senti como se o Espirito Santo me dissesse que, caso acontecesse, Deus é que tudo providencia e encaminha...
Fico muito feliz por você ser um filho amado e tão bem cuidado, que Deus abençoe seu pai com uma vida bem longa e saudável.
Abraços,
Gisele

Eufrain Roger disse...

Texto maravilhoso, Mario. Oro ao pai que siga te capacitando.

Sueli disse...

Conheço um Pai, que veio ele proprio ao mundo de pecado, dar a vida, para nos salvar.

Unknown disse...

Que texto lindoooooo!!! Somente um coração que experimenta o verdadeiro amor pode senti-lo de forma tão real e ao mesmo tempo transformar tudo em uma bela poesia. Deus seja eternamente louvado 🙏

Unknown disse...

A paz do Senhor Jesus Cristo meu amado irmão Pedro, você é uma pessoa muito abençoada por DEUS, por levar alegria, amor, companheirismo e proporcionar momentos tão felizes nessa família, que sua família seja cada dia mais cheia de amor, santidade e capacitação de DEUS, para cuidar de um ser tão especial, lindo e esperado, através de um desejo realizado pelo PAI, ao coração de um servo seu, você Pedro é uma benção de DEUS na vida do seu pai e familiares, pois você é uma herança do SENHOR, pois filhos são herança de DEUS em Cristo Jesus.
E que resposta maravilhosa, com sabedoria divina de DEUS, o seu pai deu para o questionamento feito, ajudando a quem questionou, dando uma resposta santa, que somente um verdadeiro filho de DEUS guiado pelo Espírito Santo para responder, perfeito. Respondeu a mim também, pois sempre pensamos como será o andar de nossos filhos, quando não estivermos aqui, devemos saber que temos um PAI, maravilhoso que preparou tudo para nós, antes mesmo de sermos gerado, tudo está no controle dELe. Amém Jesus Cristo. Glórias à DEUS.

um que foi adotado antes de nascer disse...

...Ele verá o resultado do penoso trabalho de Sua alma...responde à todas as nossas inquietações e vindicações, assim, como nos levará a entender, e a esperar a salvação de Deus em silêncio.
Que o Senhor Jesus Cristo seja com o vosso espírito.

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