24/12/2017

Meu pranto de Natal

Minha humildade e discrição nem sempre permitem que eu revele minha verdadeira profissão. Você já deve ter percebido que sou uma celebridade, mas deve estar se perguntando o que faço para ser assim. Não canto, não danço, não pinto, não bordo e nem sou algum guru ou empreendedor que manda foguetes ao espaço e os faz voltar de marcha-à-ré. Então qual é realmente a minha profissão?



Estou entre aquelas pessoas que são famosas justamente por não trabalharem; me encaixo na categoria de "Socialite" (leia-se "socialáite"). Há algumas décadas minha família costumava me chamar daquilo que aquele presidente collorido impichado chamava de "Marajás". Mas parece que mudaram o nome para "Corruptos" e não me apetece nem um pouco ser chamado assim.

Por ser celebridade eu preciso ter uma equipe para cuidar de meus estafantes compromissos, como comer e dormir, e tomar banho se não estiver muito frio. Além de meu pai, que me serve de guarda-costas, tenho duas funcionárias que se revesam nos cuidados da casa, da comida e da roupa. Normalmente elas procuram tirar suas folgas alternadamente, de maneira a ter sempre uma por perto para atender meus muitos compromissos.

O problema é que este ano as duas aproveitaram para folgar juntas no período das festas natalinas, e ficamos só eu e meu fiel guarda-costas para dar conta das muitas necessidades e compromissos de uma celebridade como eu. Meu pai até que se vira bem na cozinha, descongelando os pratos que minha assistente preparou para este período. Mas quando o assunto é roupa, a história é outra.

Você deve saber que meu pai é um exímio entendedor das letras e das máquinas cibernéticas. Ele tira de letra qualquer texto e já devia ter WiFi quando estava na barriga de minha avó, porque vive conectado. O problema é que não sabe lidar com tecnologia alienígena e por isso se enrola todo quando o assunto é a máquina de lavar roupa. Para ele aquela máquina é de outro mundo.

Não que ele lavaria roupa em um período assim e em condições normais de temperatura e pressão. Ele simplesmente jogaria tudo num cesto até minhas assistentes chegarem. Mas o problema é que estamos no período do Natal, e como acontece com muita gente, eu também fico extremamente sensível e emotivo. Aí entro num estado de melancolia de dar dó e passo a noite chorando.

Bem, ao menos eu acho que é choro, mas eu mesmo não percebo, porque durmo que nem pedra embrulhada em fralda descartável. Mas quando acordo os lençóis são testemunhas de meu pranto, porque estão ensopados de lágrimas. E quando me sinto empapado de lágrimas durante a noite, por alguma misteriosa reação instintiva, eu arranco a fralda e consigo me encolher em alguma beirada não coberta pelo impermeável para compartilhar minha tristeza também com o colchão.

Já é a segunda noite que isso acontece e meu pai é obrigado a lavar os lençóis, o forro do colchão (que ele comprou como sendo impermeável e agora descobriu que não era) e o próprio colchão. Para este ele usa do "Sistema Porre" de limpeza de colchões e estofados, que é embebedá-lo de álcool e algumas gotas de desinfetante antes de colocar para secar no sol.

O resto meu pai joga na máquina — roupa de cama, fronha, camiseta, bermuda, moletom, meias e cuecas. Põe lá um punhado do que ele pensa ser sabão em pó numa gavetinha que ele acha servir para  isso e aperta o botão da partida. Esse ele conhece porque é igual ao do Windows. Às vezes me preocupa pensar se não é lá que ele também bate meu milkshake...

Nem tento mais corrigir o português de meu pai, que teima em chamar minhas "lágrimas" natalinas de "urina", pois vejo que ele tem uma habilidade que minhas assistentes não têm quando lavam os lençóis. Quando elas lavam os lenções brancos, eles continuam brancos, mas quando meu pai lava junto com outras coisas ele consegue quebrar aquela monotonia e dar a eles alguma cor. Por isso meu plano é chorar mais vezes neste Natal para conseguir lençóis com cores mais vivas e fortes.




3 comentários:

ALINE RUIZ CASTILHO disse...

Ei ai ai....Que pai teimoso..insiste em chamar essas lagriminhas de urina...

Eci Meira disse...

Muito bom Pedrão! Você é seu pai são uma figura. Me faz lembrar a frase" Junto somos mais fortes e com Deus , somos imbatíveis." Aproveito para lhes desejarem um feliz Natal, e sem prantos heim? Deus os abençoe grandemente!

SemiJóias Baratas disse...

Simplesmente amei Pedro! o "Seu pranto de Natal".

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