10/05/2010

Um poema de amor

Hoje o que vai ler não fui eu quem escreveu (nem meu pai, o que dá no mesmo). É o texto de uma mãe para seu filho, adotivo como eu. Discutir se mãe é quem tem ou quem cria é que nem a história do ovo e da galinha. Eu acho que mãe é aquela que é... MÃE!

Você escreve cartas de amor? Eu escrevo, aos montes. Cartas, poemas, bilhetinhos. Despretensiosamente, quase uma catarse. Mas também recebo.

Guardadas no coração, elas têm o poder de alimentar a alma por toda uma existência. Como a declaração de amor que encontrei ao despertar de uma febre alta: sob um apetitoso biscoito, o bilhete deixado na cabeceira, por meu filho de 8 anos, dizia: “Achei que você poderia ter fome”.

Um pequeno gesto, uma pequena frase, e tudo vale a pena!

Nesse Dia das Mães decidi, com a anuência de meu filho, publicar uma delas. Porque hoje é o dia de todos os filhos, e é o dia das mães de todos os tipos; mães de corpo, mães de alma. Das felizes, e das nem tanto – das “outras”. É também para elas que eu escrevo. (ass. Liz Bittar)

Poema Para Meu Filho
por Liz Bittar


Não planejei te amar. Quando te vi, me apaixonei. Instantaneamente – simples assim.

Quando o amor entrou, como sol pela janela,
Sob seus raios intensos, prostrei-me agradecida
Arrebatada, rendida, em serena entrega,
Por tanta força inundada, e tanta luz, enceguecida

E assim, abençoada,
Te aceitei como dádiva
De amor irrestrito,
Sem fronteiras nem abismos.
Fiz da benção, o compromisso,
De nunca mentir pra você.

Como é possível te amar,
E ao mesmo tempo mentir?
Fingir, esconder tua história,
Enganar, omitir?

Caminhar ao teu lado na vida,
Roubando-te a identidade,
Forjando-te a verdade,
Traindo o que prometi?

Sem pudor, sem preconceito,
Sem reservas e sem medo,
Te revelei desde o berço
O que não querias saber.
Te fui fiel por respeito,
E não menti pra você.

Não menti quando contei o teu difícil começo
Do parto à UTI, e ao orfanato em seguida
Aí te conheci, na chegada, aos 15 dias de vida.
Lá eu, voluntária, também iniciava o meu primeiro dia.
……………….(Não existe o acaso na Casa do Pai)

É normal que se pergunte
Que questione o abandono
“Não me amou? Não me quis? De onde vim?
Por que eu? O que houve? Como?”

Mas não menti pra você ao dizer
Que não deve manter no seu peito
Mágoa, raiva ou desprezo
Por quem te permitiu nascer

Se não a conhece e não sabe
Nem por que nome ela atende
Eu te digo: ela te abrigou em seu ventre
Seu nome é “Mãe”, simplesmente.

Não podemos condenar
O que não sabemos direito
E, mesmo por um momento
Por que abrir mão do perdão
Em troca do ressentimento?

Alivie o seu coração,
Alimentando em seu peito
Senão amor, gratidão
Senão carinho, respeito.

Não menti pra você quando disse
Que a Deus peço por ela
E me coloco em seu lugar.
Sou-lhe grata por ter sido
Instrumento por Deus escolhido
Pra que pudesses chegar.

Não menti quando te disse
Que peço a Deus com fervor,
Para que a ela nunca falte,
Amparo e consolo na dor.

Que não se descuide da fé
Para ser fortalecida,
E por Graça, redimida,
Quando o arrependimento vier.

E é certo que virá, podes contar
Reserva-lhe, pois, tua compaixão
E mesmo sem nunca a encontrar
No silêncio da prece, envia o teu perdão

Em meu peito jamais existiu
Pretensão da exclusividade egoísta
Posso ser Mãe, Sebastiana, Psiu,
Mãe adotiva ou postiça.

Denominações, que me importam?
Não são o meu foco na vida.
Quero sim, neste mundo
Ser a tua melhor amiga.

Ser o que a mim couber
Nas diferentes fases da vida
Preparando as tuas asas
E servindo-te de guarida.

No que a vida me reservar,
Sem murmúrio ou penar
Quero ser porto seguro,
Pra onde possas voltar.

Nos teus primeiros anos de vida
Pra te cuidar, defender,
Afagar, proteger,
Não quero ser só amiga,
………………………..Quero ser Guardiã.

Depois, quando for minha missão
Controlar, proibir, dizer não,
Na construção da tua trilha,
Quero ser mais que do que amiga
………………………..Quero ser Tecelã.

E mais tarde, ao te assistir
Desbravar a vida, voar
E me couber te ouvir, consolar
Parceira e fã, quero ser não só amiga,
………………………..Quero ser tua Irmã.

E, lado a lado, sem mentir pra você,
Quero ser cúmplice e par
Às vezes ombro, às vezes carga
Mas sempre Porto, sempre Lar.

Te ver cair, levantar
Entre erros e acertos rir, se apaixonar
Ensinar o que sei, aprender com você
Exercer o perdão, torcer, esperar, e ceder.

Assim, crescer com você para, um dia,
No fim dessa nossa jornada,
Devolver a Deus cultivada
A semente que Ele me confiou.

E te ver árvore frondosa
De amplos galhos abertos, serenos,
Acolhedora, generosa
Regada de vida, trabalho e desvelos

Sem mentir pra você, meu menino
Nem agora, nem depois
Sei que ao nos unir no caminho,
Deus não mentiu pra nós dois

Quando no tempo e no espaço
Deus preparou nosso encontro
E os meios pelos quais se daria
Apostando em nós dois, já sabia
Que o amor nos guiaria.

E o coração de quem ama
Não questiona, não indaga
Não duvida, não reclama
Entrega-se apenas, naufraga
Deus, meu filho, não se engana.


“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal. Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha.”
Apóstolo Paulo, Coríntios 13:4-8

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