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07/09/2016

E se meu pai tivesse nascido deficiente?

Nos tempos de faculdade meu pai desenhava retratos com grafite, e outro dia ele encontrou um ex-colega da república onde morava que disse ter emoldurado na sala o retrato de sua namorada na época, hoje esposa. Nem meu pai se lembrava mais de ter feito aquele e ele nem mesmo guardou algum dos retratos que fez. Nunca mais desenhou e acabou transferindo suas ideias para os textos. Mas para meu pai era fácil desenhar (embora ele não fosse tão bom nisso, mas só aqui entre nós, ok?) porque ele nasceu com cabeça, corpo e membros do jeito que devem ser. Mas e se ele tivesse nascido... sem o antebraço?!

09/08/2013

Defletor de urina

Depois de ler este texto e mais este você achou que eu nunca iria terminar minha história e explicar o que foi mesmo que meu pai inventou, não é mesmo? Se não leu as outras, clique nos links acima e leia para entender. Chegamos agora ao "defletor de urina" e se você não sabe o que é defletor pense no quebra-vento de seu carro, se ele for dos antigos porque nos novos nem existe mais. Sua função é manter o vento do lado de fora, e no caso do defletor de meu pai a intenção é manter a urina do lado de dentro.

08/08/2013

O caso da fralda invertida

Se você leu a história desde o começo (Clique aqui se não leu) já sabe que meu pai é inventor de invenções mambembes, tipo minha cama de chão e o "sensor de movimento" feito com copo descartável. Mas é assim que deve ser: quem cuida de deficientes precisa estar atento às possibilidades de melhorar a vida do deficiente e do cuidador. E é aí que entra o "defletor de urina" que meu pai inventou. Mas antes quero falar da fralda descartável.

07/08/2013

Meu pai inventor

Já contei que meu pai é inventor? Não desses malucos, só um pouco. Também nunca inventou nada que tenha patenteado para ficar milionário. Mas ele sempre tenta descobrir uma maneira de facilitar minha vida, e por tabela, a dele também. Como o sensor de movimento com alarme que criou para me proteger.

15/04/2013

Ganhei um presente caro de aniversario!

Hoje é meu aniversário. Enquanto meu pai escreve este blog para mim ele come um pedaço do bolo de fubá que a cozinheira fez, acompanhado de uma caneca de Nescafé adoçado com "Doce de Leite Viçosa" sabor chocolate. Ele não é nem um pouco bobo, não é mesmo? Adivinha quem escolheu o bolo? Foi ele, porque eu não sei falar.

25/10/2010

Invalidez

Geralmente pessoas como eu são chamadas de inválidas. Mas o que é um inválido? Alguém que não vale nada? Ou alguém que não vale para certas coisas, mas vale para outras? Bem, neste sentido somos todos inválidos, porque sempre temos algum tipo de deficiência. Meu pai encontrou um texto muito bom sobre invalidez e vou deixar ele postar aqui. É, de vez em quando eu faço algum favor para ele...

20/10/2010

Agora tenho uma marca pessoal


Você tem uma marca? Eu tenho. Ganhei esta semana e agora estou parecendo até produto de luxo, desses que têm marca. Bem, mas não é exatamente a marca que você está pensando...

19/07/2010

E se nao existisse dor?

Já pensou que legal? Você poderia cair à vontade, se cortar, fazer qualquer coisa e nem sentiria qualquer dor. Dores de cabeça? Nada disso. Dor de dente? Pode esquecer. Sem dor a vida seria uma maravilha, não é?

26/02/2010

Pedro vai trabalhar

Rê, rê! Brincadeira. Meu trabalho é ficar escutando música o dia inteiro. Você leu o que escrevi antes? Quando eu parei, eu estava no banheiro, recém acordado e a meio caminho entre o vaso e a pia. Vamos continuar? Então venha comigo.

Vou engatinhando até a pia depois de me ajudarem a vestir minha cueca e as calças e fico em pé sozinho segurando na pia. Aí quem estiver comigo lava meu rosto, assoa meu nariz, faz minha higiene bucal e penteia meu cabelo. Fico lindão!

Mas tem que ser tudo nessa ordem, porque sou muito sistemático. Acho que tem a ver com uns restinhos de autismo que moram dentro de mim. Da pia para o chão, basta um escorregão!

Meu destino agora é a copa, onde o pão me espera. O pão aqui vai encontrar o pão ali. (rsrsrs) Para ficar em pé na cozinha, eu segurava na maçaneta da porta, enquanto alguém a mantinha aberta, ficava em pé e me sentava numa cadeira giratória, dessas de rodinhas, estratégicamente posicionada. Aí era só alguém me empurrar até a mesa. Finalmente meu pai tomou vergonha na cara e instalou uma barrinha na parede da copa. Já não preciso segurar na maçaneta da porta.

Tudo isso eu estou explicando para mostrar que, mesmo sem poder andar, não sou um peso para ninguém. Tudo é calculado para eu ter sempre onde me segurar quando preciso ficar em pé ou me sentar em algum lugar. Insistiram comigo desde o começo para eu não acabar atrofiado. O melhor exercício é o da necessidade do dia-a-dia. Mais tarde ninguém em casa vai me culpar por estar sofrendo da coluna de tanto me carregar.

Na mesa basta colocar um pão na minha mão e eu como. Como e também esfarelo para todo lado! Depois, chão de novo, engatinhar e o destino é o escritório de meu pai, onde ele colocou uma super poltrona ao lado de sua mesa. Então começa meu trabalho.

Que trabalho eu faço? Bem, eu sou fiscal de música. Fico analisando cada música que toca e geralmente é jazz ou instrumental suave, pois ele diz que o gênero distrai sem distrair. Como meu pai é palestrante e viaja muito, às vezes eu fico em outro lugar, mas é só ele chegar para eu estar pronto para prestar meus serviços de controle jazzistico de qualidade.

14/02/2010

The Butterfly Circus

Meu pai recebeu um email de uma amiga indicando um filme para ele assistir. O filme é "O Circo da Borboleta", estrelado por Nick Vujicic, que nasceu sem braços e pernas. Talvez você fique com pena do personagem do filme ou ache a idéia de ele aparecer na tela um pouco deprimente. Quer saber? É melhor assistir o filme.

Se você já passou da lição do "the book is on the table" talvez entenda o áudio original em inglês. Se preferir, o filme também tem legendas em espanhol. O que? Também não entende espanhol? Que nada, você entende sim. Quando você vê o Brasil jogando contra a Argentina não entende tudo? Então vai entender a legenda também.


Se quiser saber mais sobre a vida de Nick Vujicic, visite Life Without Limbs. Veja também os vídeos que vou publicar aqui na próxima vez.

10/11/2009

Quero mais e' companhia

Puxa, como o tempo passa! A última vez que escrevi aqui foi a tanto tempo que já nem sei se tem alguém vindo aqui para ler. Você está aí? Então quero contar como andam as coisas por aqui. Lembra que eu ganhei uma babá?

Pois é, ela me mantém ocupado, mas fica comigo só na parte da tarde e à noite, quando meu pai ou meus irmãos precisam viajar. Quando ela chegou, meu pai levou minha poltrona, que ficava no escritório, bem ao lado da mesa dele, para o meu quarto. Assim eu posso ficar lá ouvindo música. Posso, mas nem sempre quero.

É que enquanto a babá não chega, eu quero mais é voltar para a poltrona ao lado de meu pai. Como ela não está mais lá, eu apareço no escritório engatinhando - é assim que me locomovo pelo apartamento - só para receber uma ordem de meu pai para voltar ao quarto ou ir para a sala. Adivinha se obedeço?

Eu quero mais é companhia, então meu pai desistiu de ficar me mandando embora e colocou outra poltrona igual bem no lugar da anterior, ao lado da mesa de trabalho. Ele coloca uma rádio de jazz via Internet com a caixa de som bem ao lado de meu ouvido e eu me delicio. Não quero outra vida. Só quando a babá chega é que vou fazer outras coisas e deixo meu pai em paz.

Na última semana meu pai viajou a semana inteirinha e não pude ficar ao lado dele e nem escrever nada neste blog, pois é ele quem escreve para mim. Fiquei com meus dois irmãos. Como minha irmã estuda em outra cidade e meu irmão idem, geralmente eles chegam à tarde ou à noite, então fico engatinhando pela casa toda, para desespero da dona Júlia, que cuida de tudo por aqui.

Agora meu pai já chegou e pudemos bater aquele papo. Quer dizer, só ele falou, né, e eu fiquei fazendo os Hum... Hum... que estou acostumado a fazer em meu próprio idioma. Isso mesmo, eu não sei falar, mas sei quando alguém conversa comigo e principalmente quando fala de mim. Aí eu fico todo manhoso. Ter alguns problemas até que me dá algumas vantagens, como ser paparicado.

02/01/2009

Amarrado numa cama

Enquanto eu estava deitado na mesma posição de sempre - de costas - no que parecia ser uma cama em um barraco de favela, Deus estava preparando pessoas que eu não conhecia para me darem um novo lar. Minha avó, que cuidava de mim, morrera poucos dias antes e minha mão vivia nas ruas e parecia não ter condições de cuidar do filho que trouxe ao mundo.

Para evitar que eu caísse da cama, ela amarrava minha perna com uma cordinha, um pouco abaixo do joelho, e quatro anos assim foi tempo suficiente para a corda deixar uma marca em minha pele. Eu estava com quatro anos de idade e tinha um irmãozinho de dois, mas ele sabia se virar bem, ora comendo algo que encontrava no chão ou no lixo, ora dormindo no barraco de algum vizinho. O problema era que eu não podia me virar. Nem na cama, nem em qualquer lugar. Estava preso a um corpo que não me obedecia.

Me esqueci de contar que nasci com paralisia cerebral, catarata congênita e outros probleminhas mais. Deve ter sido um parto difícil, pois nasci em um hospital, coisa rara entre as crianças do lugar onde morava. Ficar numa cama sem mudar de posição durante quatro anos fizeram com que meu crânio ficasse mais achatado na parte de trás.

Como a cama devia ser afundada no centro, minha coluna também ficou um pouco vergada. Por não fazer exercícios, meus pés se deformaram, os tendões ficaram curtos e acabei ficando mais incapacitado do que quando nasci, tudo por falta de cuidados. Já pensou quantas crianças estão vivendo hoje assim?

Enquanto isso, a mais de mil quilômetros dali Deus preparava novos pais para mim. Eles já tinham conversado a respeito de adotarem uma criança, principalmente depois de papai ter lido a matéria na revista que mexeu muito com ele. A nova mamãe também ficaria sensibilizada com aquilo.

Então aconteceu algo engraçado. Os dois chegaram à conclusão de que havia muita criança saudável no mundo e muitos pais que dariam preferência a crianças saudáveis e sem deficiências. Então meus novos pais decidiram que procurariam adotar uma criança deficiente. Quer dizer, eles não procurariam.

Não procurariam porque não iriam atrás, não moveriam uma palha para me encontrar ou a alguém como eu. Iriam simplesmente esperar e orar. Decidiram que não iriam contar pra ninguém, não iriam procurar nenhuma instituição, não iriam perguntar, nadinha. Esperar e orar. Engraçado, né? Será que isso iria funcionar?

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